O abstracionismo é uma das mais discutidas escolas da pintura moderna.
Uma pintura abstrata pode ser definida como aquela cujas formas e cores
não possuem relação direta com as formas e cores das imagens da
realidade visual, em outras palavras, nada representam, nada
descrevem ou narram figurativamente. Nada representar da realidade
visual é a condição fundamental da pintura abstrata, porque certos
pintores abstratos partem, algumas vezes, das formas visuais da
realidade para chegar a formas e cores, visualmente inexistentes e,
portanto, abstratas.
Apesar das restrições e estranhezas que
provocou, o abstracionismo não é novidade absoluta na história da
pintura. No passado, mais de uma vez, ocorreram formas e cores
abstratas, desligadas completamente das realidades visuais. As
primeiras manifestações, neste sentido, apareceram ainda na
Pré-História, segundo estudiosos, entre os artistas da idade da pedra
polida. Animados de intenções decorativas, negavam ou se abstraíam do
verismo visual, nas representação as imagens do mundo exterior.
Durante a Idade Média, como na alta antigüidade oriental, a
representação da natureza foi artisticamente ignorada. Embora
figurativa, a pintura medieval - cristã primitiva, bizantina
romântica e gótica primitiva - foi em essência abstrata, porque não se
inspirava nas realidades da natureza, mas nas abstrações da crença
religiosa. Numerosas seitas muçulmanas, por exemplo, recusam a
representação figurativa da realidade, substituindo-a por desenhos
ornamentais caprichosos, os chamados arabescos, ainda que em
obediência às prescrições religiosas impostas por Maomé. Seria longo
tratar mais detidamente das manifestações de abstracionismo no
passado, nas artes eruditas e primitivas.
Os historiadores e críticos da arte moderna
concordam em atribuir as primeiras pesquisas e realizações abstratas
na pintura moderna ao russo Vassily Kandinsky (1866-1944),
anteriormente figurativo de tendência fauvista. Para que se possa
conversar melhor sobre abstracionismo nas artes plásticas, em geral, e
na pintura, em particular, será preciso esclarecer bem a
significação de dois termos bastante usados pelos escritores e críticos
de marte moderna - conteúdo e forma.
Conteúdo e Forma
No vocábulo de pintura, o conteúdo é aquilo
que o pintor representa - uma paisagem, uma figura humana ou animal,
uma cena ou episódio qualquer, religioso o profano, passado ou atual,
flores, frutas, objetos, etc., quando a composição passa a se chamar
natureza-morta. Forma é a maneira como o pintor utiliza os seus
meios expressivos, isto é, as linhas e as cores, com maior ou menor
talento, mesmo sem nenhum, para representar o conteúdo. Quando se diz
forma, no entanto, não se quer dizer a habilidade manual e a rapidez
na execução, como num retrato que de tão bem feito e parecido só falta
falar. Essa habilidade manual de fazer bem e depressa se chama
pejorativamente virtuosismo ou maneirismo. No nosso caso, forma
significa a carga expressiva, complexa e verdadeiramente
subconsciente ou subliminar, que o artista confere às suas linhas e
cores. Nesse sentido, a forma de Van Gogh, por exemplo, profundamente
original, possui fascinante poder expressivo, inclusive nas próprias
pinceladas impulsivas, que se sucedem em mágicos movimentos
ondulatórios, com os quais nos fala eloqüentemente de seus ardentes e
doloridos sentimentos.
Kandinsky e o Abstracionismo
O próprio Kandinsky conta, com simplicidade,
como chegou à pintura abstrata. Entrando certa vez no atelier deu de
olhos num quadro de sua autoria, colocando de tal maneira que não
percebeu de imediato o conteúdo, isto é, aquilo que o quadro
figurativamente representava. Percebeu apenas a forma, entendida, no
caso, como as linhas e cores, sem representação figurativa. Sem nada
representarem figurativamente, as cores e linhas do quadro lhe pareceram
dotadas de particular e intensa beleza. Corrigindo a posição do
quadro e percebendo agora o conteúdo, verificou que as linhas e cores
perdiam a particular e intensa beleza. Corrigindo a posição do
quadro e percebendo agora o conteúdo, verificou que as linhas e as
cores perdiam a particular e intensa beleza, que antes possuíam,
quando livres de qualquer representação figurativa.
Esse fato banal intrigou Kandinsky,
estudioso de teosofia e inclinado às especulações do conhecimento
supra sensível. A propósito, fez inteligentes observações reunidas em
livro - O Espiritual na Arte. Observou, entre outras coisas, que uma
forma e uma cor vermelha, sem qualquer representação das realidades
visuais, isto é, sem conteúdo, podem nos despertar ou comunicar as
mesmas sensações e sentimentos quando reproduzem o telhado de uma casa, a
saia de uma camponesa ou o manto de um antigo soldado romano. Podem
nos sugerir sentimentos de calma ou de agitação, energia ou brandura,
movimento ou imobilidade, etc., com a mesma eloqüência das formas
figurativas.
Para nos comunicar a sensação ou idéia de
frio, será necessário representar uma paisagem européia de inverno,
ou poderá o pintor com linhas e cores, que nada representam
figurativa ou realisticamente, nos despertar a mesma sensação ou
idéia de frio? Claro que pode, pois no caso não representará, mas
expressará o frio. Todos sabemos das diferenças entre representar e
expressar. Lembremo-nos dos futuristas - não queriam representar um
cavalo galopando, mas, por meio de retas e curvas, cores e luzes,
expressar a velocidade do galope do cavalo.
Observou ainda Kandinsky que as formas e
cores abstratas se dirigem mais à nossa percepção sensível do que à
nossa percepção intelectual. Desse modo, mesmo um analfabeto pode
sentir e não entender uma pintura abstrata, pois ali nada existe para
'entender' no sentido comum desta palavra. Desta forma, sentida por
todas as pessoas, independentemente de seus níveis culturais, dizia
Kandinsky ser a pintura abstrata linguagem por excelência universal de
comunicação. Finalmente, Kandinsky observou que a pintura abstrata,
nos desperta sentimentos, reações e associações de idéias mais
livres, variadas e múltiplas. Diante de uma quadro abstrato, a
sensibilidade de cada um reage com liberdade, à sua maneira,
peculiar, ao passo que na pintura figurativa a sensibilidade fica
presa ou dirigida pelo que está realisticamente representado.
Foram ainda numerosas as observações de
Kandinsky. As suas pesquisas passaram a despertar, sem demora, o
interesse de outros artistas, inclusive escultores. Em breve tempo, o
abstracionismo dominava na pintura contemporânea. Constitui-se em
numerosa e diversificada escola. A sua difusão coincidia, aliás, com
as novas concepções energéticas da matéria. Na opinião de muitos
estudiosos, o abstracionismo na pintura apenas antecipava os
progressos atuais da ciência e da técnica no conhecimento e
interpretação de novos estados da matéria, considerada, em última
instância simples energia sem vibração. Na sua rápida difusão,
dividiu-se em duas tendências características: o abstracionismo
informal e o abstracionismo geométrico.
O Abstracionismo Informal
No abstracionismo informal, as formas e
cores são criadas impulsivamente, no livre curso da emoção, com
absoluto predomínio do sentimento. Em contato com o real ou com a
natureza, o pintor informal abstrato expressa uma emoção em lugar de
representar uma imagem criada ou composta intelectualmente.
Muitos abstratos, aliás, pintam
abstratamente diante da natureza. Apenas evitam imitar, copiar,
descrever aspectos da natureza. Procuram, ao contrário, sugerir,
evocar, aludir, fixando impressões gerais ou particulares de ritmos
da natureza.
Para alguns autores, o abstracionismo
informal seria uma revolta do espírito contra a precisão mecânica da
vida moderna, contra o culto do racionalismo e da exatidão da
civilização industrial. Seria uma espécie de romantismo moderno.
Alguns abstratos puros entendem que, embora não partindo ou não se
inspirando na natureza, o artista pode encontrá-la, quando expressa e
comunica ritmos de vitalidade. Em defesa do abstracionismo informal
também se alega que o quadro figurativo reproduz o mundo exterior; o
quadro abstrato, o mundo interior do artista - as linhas e cores
adquirem virtudes poéticas, verdadeiramente musicais, porque não
representam as qualidades materiais da realidade física, mas as
realidades do mundo psíquico do artista.
Quando assume feições luminosas, obtidas por
meio de tonalidades delicadas e feéricas, o abstracionismo informal
chama-se "abstracionismo lírico"; quando, porém, o sentimento se
exaspera e dramatiza, através de tonalidades carregadas, intensas e
violentas, chama-se "abstracionismo expressionista".
Os melhores exemplos de abstracionismo
informal se encontram em grande parte das obras do próprio Kandinsky,
que mais tarde teria uma fase geométrica.
O Abstracionismo Geométrico
No abstracionismo geométrico, as formas e as cores estão submetidas à disciplina geométrica.
Em lugar de expressar estados emocionais, os
abstratos geométricos expressam estados ou valores intelectuais. As
obras mais rigorosamente representativas dessa tendência são as do
holandês Piet Mondrian, criador do neoplasticismo ou concretismo.
Segundo estudiosos, enquanto o abstracionismo informal significa, por
sua impulsividade e emocionalismo, rebelião contra a precisão e
rigor lógico dos processos mecânicos da civilização industrial, o
abstracionismo geométrico significaria, de modo especial nas formas do
neoplasticismo de Mondrian, a sublimação da nova sensibilidade humana
criada pela mecanização.
Nas duas tendências fundamentais, o
abstracionismo apresenta subtendências. No informal, as mais
importantes são o tachismo e o grafismo; no geométrico o
neoplasticismo ou concretismo.
Tachismo
A denominação tachismo vem da palavra
francesa tache (mancha). Foi criada em 1954 pelo crítico francês
Pierre Gueguen. Inspirando-se nas manchas e erosões dos velhos muros,
esses abstratos se expressam com pinceladas geralmente largas,
verdadeiras manchas, com o mínimo de elementos gráficos ou linhas.
Sob as sugestões dos surrealistas, criam num estado de verdadeiro
automatismo psíquico. Obedecem, algumas vezes, à instantaneidade do
movimento espontâneo e irrefletido da mão.
Grafismo
Os abstratos grafistas utilizam de
preferência a linha ou elementos gráficos, num estado também de
automatismo psíquico ou de impulsividade ainda mais acentuado.
Inspiram-se na caligrafia abstrata dos japoneses e chineses.
Pela emoção extrema e execução veloz,
realmente automática, o tachismo e o grafismo negam os valores
intelectuais ou racionais inerentes às imagens figurativas
representativas das realidades visuais.
O grafismo também tem sido considerado
expressão das exasperantes tensões emocionais da vida moderna,
mecanizada mas angustiada. Entre os norte-americanos, a grafismo
assumiu formas peculiares, denominadas action-painting ou pintura de
ação, designação criada em 1952 pelo crítico Harold Rosemberg. Nessa
tendência, procuram traduzir não o automatismo psíquico da criação,
mas sobretudo o próprio gesto ou ação de pintar. É chamada por isso
mesmo também pintura do gesto ou gestual. Entre os mais conhecidos
grafistas estão o norte-americano Jackson Pollock (1912 - 1956) e o
francês Georges Mathieu (1921).
Entre os norte-americanos - Jackson Pollock,
Willem de Kooning, Adolf Gotlieb, William Baziote, Grace Hartigan - a
action painting adquiriu sugestões de força impetuosa, brutal mesmo,
audácias insólitas de cor, juntamente com as dimensões gigantescas
da tela. A execução se faz geralmente, com a tela imensa estendida no
chão, com a técnica do dripping, criação de Pollock - tintas
pingando ou escorrendo de recipientes perfurados - e novas tintas,
não as tradicionalmente artísticas, mas as industriais, o duco, o
verniz de alumínio e outros.
O Neoplasticismo ou Concretismo
É a mais completa e rigorosa expressão do
abstracionismo geométrico. Foi criado pelo holandês Piet Mondrian
(1872-1944), que se inspirou no cubismo, para chegar a formas
retangulares de extrema simplicidade, ao mesmo tempo que empregava
apenas as cores primárias e os brancos e cinzas claros como elementos
luminosos.
Melhor dizendo, o neoplasticismo consiste em
estabelecer relações de posição, dimensão e proporção tão simples e
gerais, suscetíveis de serem aplicadas às demais artes, desde a
arquitetura à paginação de um jornal. Tudo o quanto seja acessório e
não essencial e universal é eliminado, inclusive a linha curva, que
Mondrian considerava expressão do efêmero da vida orgânica. Mondrian
quer, no entanto, que as relações de composição que estabelece
possuam ou sugiram a vitalidade da própria natureza. Pesquisou e obteve,
por outro lado, o equilíbrio a assimetria. Contrariou, desse modo, a
velha convicção de ser possível o equilíbrio somente na simetria.
Impessoal por excelência, embora seu estilo
seja inconfundível e inimitável como o de Van Gogh, sua antítese,
sublimou plasticamente, com o seu espírito de lógica e de síntese, as
nova sensibilidade humana criada pela mecanização.
Ingênuos e Primitivos
Os historiadores de arte deste século
estabeleceram duas novas categorias estilísticas: os ingênuos e os
primitivos.
Em geral, na conceituação dessas tendências
ou escolas, se assim podemos chamá-las, e mesmo no uso de suas
denominações, ocorreram impropriedades, muitas vezes observadas até
em estudiosos de bom conceito. Um pintor ingênuo, naif em francês, se
distingue fundamentalmente de um pintor primitivo. Enquanto o
primeiro revela percepção intelectual e lógica, o segundo revela, ao
contrário, percepção e interpretação mágica e ilógica, da natureza e do
homem.
Os Ingênuos
Os ingênuos são autodidatas, isto é, sem
formação ou aprendizado regular e sistematizado numa academia de arte
ou sob a orientação de um mestre consagrado.
Geralmente são artistas amadores, não
profissionalizados, por isso mesmo chamados pintores de domingo,
animados por natural e irresistível necessidade de expressão. Na
verdade, em última análise, desejam pintar como os mestres clássicos,
que admiram e pretendem imitar. É conhecida a observação do popular
ingênuo francês Henri Rousseau ao Picasso da fase cubista, por volta de
1910:
- Senhor Picasso, somos os dois maiores
pintores modernos. O senhor, com seu estilo egípcio; eu, com meu
estilo clássico!
Assim é que os ingênuos utilizam valores
expressivos e recursos técnicos idênticos aos da pintura erudita. A
visão ingênua e poética que possuem do mundo e as singularidades e
limitações da técnica conferem, no entanto, às suas obras,
peculiaridades expressivas e técnicas, dotadas de poderes especiais
de sugestão. Em regra, amam sinceramente e são fiéis à realidade, mas
o seu verismo consciencioso na interpretação da realidade, inclusive no
gosto e cuidado da minúcia, acaba nos comunicando uma realidade
irreal, resultado de pura invenção e fantasia, senão mesmo na melhor
linha do melhor fantástico.
Aliás, como muito bem observou Marcel Brion,
cada ingênuo cria a sua própria técnica, à força de paciência,
observação e paixão. Algumas vezes, em originalidade e segurança,
essa técnica se iguala às dos artistas do XIII século europeu,
chamados primitivos, pertencentes justamente à fase em que a velha
pintura românica popular, também ingênua, evoluía para a pintura gótica
ainda mística, porém mais erudita e anunciadora, como sabemos, do
racionalismo renascentista. Dessas identidades expressivas e técnicas
resultaria, na opinião de vários autores, a designação e primitivos
dada por extensão aos modernos ingênuos.
Como ainda observou Marcel Brion, os
ingênuos são anacrônicos, no sentido de se manterem à margem das
transformações e movimentos estéticos que se operam em torno, com
inovações no modo de representar a realidade. Estão fora do tempo e
do espaço. Por isso mesmo, não existem maiores diferenças entre um
ingênuo do passado e um da atualidade, como entre um ingênuo alemão e um
francês.
Não se deve confundir, porém, o autodidata
talentoso como o ingênuo. Aquele adquire sabedoria ou erudição
plástica, na composição do desenho e na cor. O segundo, embora
aperfeiçoada a sua técnica, mantém-se inalterável no mesmo estado de
graça, inocência e pureza. O brasileiro José Pancetti, por exemplo,
nada possui de ingênuo, mas de autodidata excepcionalmente dotado, ao
passo que outro brasileiro, Heitor do Prazeres, sempre manteve, ainda
que apurando a técnica, as características de ingênuo.
Finalmente, na sua visão própria, o ingênuo
revela os mesmos valores expressivos que caracterizam a pintura
erudita, coisa que não acontece com o primitivo, como em seguida
veremos. Esses valores foram assim sumariados por estudiosos:
1 - A forma humana é o elemento essencial.
2 - Respeito à imagem humana.
3 - Representação da realidade.
4 - Arte de volume, com três dimensões.
5 - Observação precisa e realista.
6 - Predominância da aparência.
7 - Predominância do senso ético.
8 - Racionalismo.
Os Primitivos
Ao contrário dos ingênuos, os primitivos
revelam percepção mágica e ilógica do universo ou da realidade.
Já foi dito e repetido que o homem
primitivo, com a sua mentalidade mágica, situa-se diante de um mundo
penetrado de terror cósmico. Sua arte lhe servirá de amuleto e
proteção contra forças e poderes ocultos, invisíveis e misteriosos,
que o cerca e ameaçam. Na mentalidade primitiva, as relações entre a
natureza e o homem não são ordenadas pelo pensamento lógico, mas pela
crença na presença de potências e entidades maléficas, cujos poderes
devem ser conjurados. Eis porque o artistas primitivo recusa o
realismo visual para usar a deformação simbólica, senão a própria
linguagem abstrata, isto é, signos e símbolos mágicos.
Porque não se identifica com a natureza não a
representa nas aparências exteriores. Para o seu espírito, a
natureza está povoada de ameaças. Esse temor na natureza, o terror
cósmico de que já falamos, explica para muitos autores a ausência da
representação ilusionista do espaço na pintura do homem de
mentalidade primitiva. O espaço seria a identificação com a natureza, o
trânsito livre no mundo de entidades espirituais desconhecidas que o
amedrontam. A representação do espaço físico aparece, como sabemos,
quando o homem interpreta o mundo não à base do sentimento mágico,
mas do pensamento lógico.
Finalmente, como fizemos com os ingênuos,
assim poderemos resumir, na opinião de vários autores, as
características dos primitivos:
1 - Interesse secundário pela figura humana.
2 - Deformação da imagem humana.
3 - Deformação da realidade por esquemas mentais.
4 - Arte de superfície.
5 - Concepção geométrica e abstração.
6 - Expressão de idéias espirituais.
7 - Valor secundário do senso estético.
8 - Ilogismo.
Quando um pintor, mesmo erudito, como em
tantas obras de Paul Klee, se expressa sob essas características, não
poderá ser classificado entre os ingênuos, fiéis ao realismo visual.
Situa-se, consequentemente entre os primitivos.
O DADAÍSMO E O SURREALISMO
O dadaísmo ou dadá (1916) apareceu em
Zurique, Suíça, durante a Primeira Grande Guerra (1914 - 1918).
Naquela cidade, estavam exilados intelectuais e artistas de várias
nacionalidades, que nos seus países haviam sido contra a guerra.
Resolveram fundar um movimento literário e artístico capaz de
expressar a decepção que experimentavam com os valores tradicionais da
cultura - filosofia, religião, moral, ciência, arte - incapazes de
evitar os morticínios e destruições da terrível luta armada entre as
nações mais civilizadas da terra. A guerra lhes parecia completo
irracionalismo da humanidade que se considerava superiormente
civilizada. Daí o dadaísmo exprimir, a um só tempo, decepção e
revolta.
Como na época estava bastante em moda o
estudo da psicologia de Freud ou psicanálise, onde através dos
chamados reflexos ou atos automáticos se demonstra o teor de
irracionalismo existente nas manifestações do subconsciente, os
dadaístas basearam a sua teoria da criação artística no puro
automatismo psíquico. Tudo deve ser criado artisticamente sem qualquer
intervenção da lógica, livre de interferência da razão. "O pensamento
se faz da boca para fora." - dizia o poeta húngaro Tristan Tzara, um
dos chefes do movimento.
Para denominar o movimento, adotaram
processo marcado de irracionalismo ou de acaso, coisas que para eles
tinham a mesma significação. Tristan Tzara abriu ao acaso um
dicionário Larousse, fechou os olhos e deixou o dedo cair sobre a
página. O dedo caiu sobre a palavra dada, designação francesa infantil
de cheval, cavalo. Quando lhes perguntavam o que significava dadá,
respondiam: "Nada! Alguma coisa pode ter significação diante do
terror da guerra?" Partiram, portanto, para a negação de tudo.
Juntamente com o irracionalismo freudiano e o acaso, os dadaístas se
distinguiram também pela crítica satírica e implacável, niilismo
destruidor e anárquico, da sociedade capitalista, responsável pela
guerra.
Mesmo durante a guerra, o movimento se
difundiu em vários países, inclusive nos Estados Unidos. Terminada a
guerra, o dadaísmo adquiriu maior virulência na Alemanha e na França,
em virtude do clima social favorável que encontrava. As suas
exposições e manifestações literárias se caracterizavam pela
agressividade, irracionalismo e negativismo. Na pintura, adotou
diferentes recursos técnicos, especialmente as colagens dos cubistas,
não com finalidades plásticas, mas de sátira e protesto social.
O princípio fundamental do dadaísmo, isto é,
o automatismo psíquico ou a exploração das manifestações do
subconsciente, na melhor linha freudiana, serviria aos franceses, com
André Breton à frente, para a criação do surrealismo, também baseado
na aplicação da doutrina de Freud.
O Surrealismo
A estética do surrealismo está condensada no
manifesto escrito e publicado em Paris, em 1924, pelo poeta e
escritor francês André Breton (1896), estudante de neurologia e
adepto de Freud. Escreveu que o surrealismo é "automatismo psíquico
puro, por meio do qual se propõe expressar, seja verbalmente, seja
por escrito, seja por qualquer outra maneira, o funcionamento real do
pensamento. Ditado do pensamento com ausência de toda fiscalização
exercida pela razão, alheio a toda a preocupação estética ou moral".
Em linhas gerais todos nós conhecemos as
reveladoras contribuições de Freud ao melhor conhecimento de nossa
vida psíquica, com as suas aplicações no tratamento das neuroses.
A nossa alma ou a nossa vida psíquica se
divide, como sabemos, em três zonas - o inconsciente, o subconsciente
e o consciente. No inconsciente, estão os nossos impulsos
primitivos, verdadeiramente instintivos, que não conhecemos
justamente por serem inconscientes. Quando esses impulsos primitivos
emergem das profundidades desconhecidas do inconsciente e tentam
chegar ao consciente, para se transformarem em atos e palavras, tem
de atravessas o subconsciente, que os fiscaliza, recalca ou sublima.
Disfarça-os, por assim dizer. Desse modo, quando chegam ao
consciente, refletem não a nossa personalidade inconsciente, mas a
nossa personalidade consciente, modelada e aperfeiçoada pela educação
e cultura.
Algumas vezes, porém, as manifestações do
inconsciente burlam a vigilância e chegam disfarçadas ao consciente.
Isso ocorre, geralmente, quando dorminos. Nosso sonhos, por isso
mesmo, são quase sempre disparatados, absurdos, fantasiosos e
simbólicos. Ocorre também quando estamos acordados, graças ao
processo que os psicanalistas chamam de automatismo psíquico e básico
para os dadaístas e surrealistas - coisas que fazemos ou dizemos,
aparentemente inexplicáveis, porque independentes da nossa vontade ou
contrárias à lógica.
Fascinados pelas idéias e métodos de Freud,
os surrealistas recusam, como fontes de criação artística, as
manifestações racionais e lógicas do consciente. Aceitam somente as
manifestações do subconsciente, absurdas e ilógicas, como acabamos de
ver, principalmente nos sonhos, nos automatismos psíquicos, nos
estados alucinatórios, que consideram fontes artísticas mais
autênticas do que a natureza e a realidade.
Dizia André Breton: "No meu modo de
entender, nada existe de inadmissível." Passa-se então a considerar o
irreal tão verdadeiro como o real e o irracional, o fantástico e o
maravilhoso como a única linguagem artística universal entre os
homens.
Recursos dos Surrealistas
Na pintura, além do registro e
representação, com inteira liberdade, sem qualquer fiscalização da
razão, do fluir incessante de idéias e imagens em nosso espírito, os
pintores surrealistas valeram-se ainda de outros recursos - o humor,
paisagens de sonho e excesso de realismo, quase fotográfico.
O humor, dizem os surrealistas - é a máscara
dos nosso desesperos. Exemplos: quatro cirurgiões curvados
gravemente sobre uma mesa de operações onde está um guarda-chuva
fechado, ou confortável poltrona, em pleno deserto do Saara. As
paisagens de sonho são paisagens fantasmagóricas, irreais, inexistentes
na natureza. O excesso do realismo, chegando ao mais cru verismo
fotográfico na representação dos objetos, concorre para maior
irrealidade.
Restrições à Pintura Surrealista
Duas restrições são feitas á pintura
surrealista. A primeira pelos psicanalistas: as manifestações do
subconsciente realmente são ricas de beleza, mas extremamente
pessoais e simbólicas. Precisam ser interpretadas no seu simbolismo,
como os analistas fazem com os sonhos dos seus pacientes estendidos
no sofá dos consultórios. Apesar de desconhecida a significação de
seus símbolos, a verdade é que pintura surrealista exerce irresistível
fascínio em nosso espírito. A segunda restrição, feita por alguns
pintores, é a seguinte: a concepção do quadro pode ser subconsciente,
automática, mas a sua execução será sempre obra do consciente, com a
aplicação de recursos racionais e lógicos ou em sentido de absoluta
consciência.
O francês André Masson (1896) procurou sanar
essa contradição insanável entre a concepção subconsciente e a
execução consciente com os seus tableaux de sable (quadros de areia).
Sobre uma tela coberta de cola fresca, atirou desordenadamente, num
verdadeiro automatismo, punhados de areia de cores diferentes.
Tentava obter, desse modo, automatismo também na execução. Os
resultados não o satisfazem, abandonou, por isso, a pintura surrealista.
O espanhol Salvador Dali, um dos
surrealistas mais populares, criou a paranóia crítica - delírio na
interpretação do mundo e do próprio eu. O paranóico crítico vive num
mundo estranho, não se submetendo à lógica do cotidiano. "É preciso
sistematizar a confusão e contribuir para o total descrédito da
realidade", disse Dali.
O pintor surrealista pode representar as
manifestações de seu subconsciente de dois modos: figurativo ou
abstrato. Em consequência existem surrealistas figurativos (Salvador
Dali) e surrealistas abstratos (Juan Miró).
Entre os mais destacados surrealista
figurativos estão Salvador Dali (1904), René Magritte (1898), Paul
Delvaux (1897) e Marc Chagall (1887). Entre os surrealistas
abstratos, ainda que em algumas obras sejam figurativos, Juan Miró
(1893), Yves Tanguy (1900), Max Ernest (1891), Francis Picabia (1879) e
Hans Arp (1887).
No passado, entre remotos precursores do
surrealismo, os estudiosos citam Jerônimo Bosc (1450/60 - 1516) e
Giuseppe Arcimboldo (1530 - 1596).
A Escola de Paris
Na pintura moderna, existem artistas
extremamente originais, complexos e versáteis. Torna-se difícil
classificá-los em quaisquer das escolas conhecidas, sobretudo se
considerarmos que uma escola supõe um corpo de doutrina e uma unidade
de direção ou de intenções e meios expressivos. Onde
classificaríamos Picasso, por exemplo, a um só tempo tão original,
versátil e complexo estilisticamente? O mesmo problema oferecem
Modigliani, Paul Klee e outros.
Para resolver esse problema, certamente mais
por necessidades didáticas do que por outras considerações, críticos
modernos concordaram em classificar, indiferentemente às
nacionalidades, sob a rubrica Escola de Paris, esses artistas
simultaneamente originais, versáteis ou complexos, do ponto de vista
estilístico. Todos os anos da Galeria Charpentier, na capital francesa,
abre-se a exposição a Escola de Paris, apresentando pintores que
reclamam acima de tudo completa independência, complexidade,
originalidade e versatilidade. É bem verdade que muitas vezes essas
exposições não concordam com as finalidades propostas por vários
críticos. De qualquer maneira, no entanto, sem cair em rigorismos
exagerados que levam à secura, quando se encontrar um artista
original como Modigliani, versátil como Picasso ou complexo como Paul
Klee, poderá ser classificado na Escola de Paris.
A OP-ART
A op-art (optical-art) ou arte ótica, tem,
na verdade, o seu precursor em Victor Vassarely (1908), criador da
plástica cinética ou plástica do movimento.
Segundo Vassarely, em plena idade da
mecanização e industrialização, com a produção e o consumo de massa, a
pintura não pode mais continuar sendo feita com a mesma técnica
milenar dos pintores das cavernas pré-históricas, capaz de produzir
somente "peças únicas", que se destinam, em última análise, à
contemplação ou consumo individual. Para se tornar expressão
autêntica dos nossos tempos, que se caracterizam pela velocidade e
multiplicidade, a pintura deve ser produzida mecanicamente em série,
consumida em massa e exprimir o dinamismo da vida moderna. Dentro dessa
ordem de idéias, criou a plástica cinética que se funda em pesquisas e
experiências dos fenômenos de percepção ótica.
As suas composições se constituem de
diferentes figuras geométricas, em preto e branco ou coloridas. São
engenhosamente combinadas, de modo que através de constantes
excitações ou acomodações retinianas provocam sensações de velocidade
e sugestões de dinamismo, que se modificam desde que o contemplador
mude de posição.
O geometrismo da composição, ao qual não são
estranhos efeitos luminosos, mesmo quando em preto e branco, parece
obedecer a duas finalidades. Sugerir facilidades de racionalização
para a produção mecânica ou para a multiplicidade, como diz o
artista; por outro lado, solicitar ou exigir a participação ativa do
contemplador para que a composição se realize completamente como
"obra aberta".
Essas pesquisas e experiências no campo das
sensações óticas foram e estão sendo desenvolvidas por numerosos
artistas, em vários países. Receberam a denominação de op-art ou arte
cinética, que, como as demais escolas de pintura moderna, apresenta
grupos e subtendências.
A op-art teve uma de suas manifestações
públicas de maior importância na coletiva The Responsive Eye (1965),
no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.
A POP ART
Pop-art é a abreviatura em inglês de popular
art (arte popular), nova escola que apareceu nos Estados Unidos, por
volta de 1960, para alcançar imediata repercussão internacional.
A sua primeira manifestação pública data da
exposição do norte americano Jasper Johns (1930), na Galeria
Castelli, em 1958 na cidade de Nova Iorque. Considerando-se que esse
artista explicava as suas obras como resultados de sonhos, os
processos técnicos que adotava (colagens e montagens), o teor de
irrealismo, de grotesco e mesmo de satírico, ma interpretação da vida
urbana nos Estados Unidos, consideradas essas circunstâncias, a nova
escola recebia inicialmente a denominação de New Dada (Novo Dada).
Realmente, na técnica e no espírito, eram evidentes as suas
identidades com o dadaísmo. Os dadaístas, como vimos, fundando-se no
automatismo psíquico estudado por Freud, inovaram na técnica e
criticaram a sociedade moderna, inclusive na crescente mecanização
das atividades humanas. Sabemos ainda, por outro lado, que os
primeiros dadaístas, europeus e nacionais, encontraram interesse
excitante nos meios artísticos e intelectuais de Nova Iorque, mesmo
durante a Primeira Grande Guerra. (1914 - 1918).
Como os novos artistas se inspiram no
cotidiano dos grandes centros urbanos norte-americanos, caracterizado
pela presença e ação dominadora da tecnologia industrial, a nova
escola recebia finalmente a denominação de pop-art, hoje
universalizada. Podemos considerá-la, desse modo, manifestação
tipicamente norte-americana.
Porque utiliza não apenas colagens, também
montagens, com objetos os mais díspares e inesperados, juntamente com
elementos fotográficos, pictórios, escultóricos, arquitetônicos, ao
lado das novas tintas sintéticas industriais, não mais as tintas
tradicionalmente "artísticas", a nova escola recebeu as denominações
de combine painting (pintura combinada) ou art d'assemblage (arte de
agregação ou conjugação).
Na sua ainda breve existência, a por-art
marcou, desde logo, dois momentos de projeção internacional, para se
prestigiar consideravelmente. Esses momentos foram a grande coletiva
no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (1962) e a sensacional sala
especial com que a distinguiu a representação dos Estados Unidos à
Bienal de Veneza (1964), quando o grande prêmio foi atribuído a Robert
Rauschemberg (1925), um dos papas norte-americanos da nova escola.
Não são poucos os críticos e historiadores
da arte moderna que a consideram tendência ou escola sem
originalidade marcante e mesmo sem possibilidades de permanência e
desenvolvimento maiores. Na opinião de muitos, nos processos técnicos
e intenções expressivas, ainda que marcados de inovações, não
passaria, em última análise, de revivescências do dadaísmo e do
surrealismo. Adota recursos expressivos que, em substância, são os do
cinema, da publicidade e da televisão, em outras palavras, da
comunicação de massa. Inspira-se no ritmo e imagens, no ambiente e na
vida que a industrialização criou nas grandes cidades. As suas
fontes de inspiração abrangem desde os cartazes de publicidade,
automóveis e sinais de trânsito aos produtos industriais em geral,
eletrodomésticos e comestíveis enlatados em geral, produzidos e
consumidos em massa. A visão de um supermercado por exemplo, possui
na sensibilidade e imaginação de um artista pop sugestões estéticas
mais valiosas do que a contemplação de uma paisagem bucólica.
Os pop-artistas querem justamente acentuar a
força das imagens e apelos veementes, criadores de situações
existenciais agressivas, vertiginosas e angustiantes, da civilização
industrial urbana.
Não se poderá negar, por exemplo, a
influência na imaginação das massas populares das histórias em
quadrinhos e das fotonovelas, com personagens mundialmente admirados,
pertencentes a nova mitologia também de seres prodigiosos como os
das antigas, dotados também de poderes sobrenaturais aos quais se
acrescentam agora aqueles outros proporcionados pelas maravilhosas
modernas da ciência e da técnica. Isto sem falar na eficácia narrativa
da imagem, maior do que a da palavra escrita. A massa não quer mais
ler, quer ver história. Por isso mesmo, um dos pop-artistas
norte-americanos., Roy Liechtenstein (1923), exaltou a influência das
histórias em quadrinhos. Monumentalizou, transformando-as em
verdadeiros murais, personagens e cenas. Outros se inspiram nas
sinalizações do tráfego. Criam sinalizações absurdas, que adquirem
aspectos alucinatórios.
Nas suas colagens e montagens, os
pop-artistas aplicam o que denominam a técnica do deslocamento. Os
surrealistas já haviam aplicado técnica idêntica quando representavam
os objetos desviados de suas finalidades lógicas ou utilitárias -
uma confortável poltrona em pleno deserto do Saara. Assim também
fazem os pop-artistas, ao modelar fielmente em gesso ou fundir no
bronze patinado enorme lâmpada elétrica ou descomunal tubo de
dentifrício, para lhes conferir, pelo verismo e gigantismo, estranhos
poderes de sugestão. Desse modo, conseguem transfigurações de
produtos industriais banalizados pelo cotidiano.
Explicando essa técnica de valorizar
produtos fabricados e consumidos em massa, o pop norte-americano
Jasper Johns disse: "Preocupa-me que uma coisa não seja o que era,
que se torne diferente do que é, a qualquer momento em que se
identifique mais precisamente uma coisa, e com a fuga desse
momento..."
Sexo e violência, furor ou desgosto sexual,
são outros ingredientes da pop-art. Acham alguns críticos que sua
importância está diminuindo, porque são numerosos desde algum tempo
os pintores voltados para pesquisas e análises dinâmicas dos
fenômenos de percepção e comunicação audiovisual, tendo em vista
processos de produção e consumo de massa aplicados à comunicação
também de massa.
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